quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Vice e Versa


Os olhares passaram desapercebidos, eram jovens demais para se conhecerem e não saberiam aproveitar o significado que um teria na vida do outro. Se olharam sim mas não insistiram. Talvez de algum modo já soubessem cativos um do outro. Sabiam mais que acaso, eram um para o outro o próprio destino. Se feliz? Não era hora de responder, nem de pensar, não era nem mesmo hora de olharem-se, mas era irresistível, ainda que fosse para adiar o encontro.
Aprisionaram olhares em fotografias e ao mesmo tempo apreciaram um ao outro o passado que na fotografia foi gravado e riram do futuro que ambos já percebiam. Mas ainda não, ainda não era hora de levar a sério a vida, ainda seguiriam um de cada lado. E continuavam a rirem e brincarem sobre o que viria. E ainda em fotografia gravaram também seus sorrisos e ao mesmo tempo os lábios de um viraram também objeto de contemplação do outro. Mas ambos não gostavam de encontros marcados, mas mesmo assim marcariam se não estivessem tão certos que o acaso os uniria algumas vezes até o definitivamente.
Ao ar livre ela procurava estrelas e ele andava olhando para o chão... ela decide olhar o chão e ele procurar estrelas e os olhares finalmente encontram-se e logo o sorriso toma o rosto de ambos. Se cumprimentam e ainda se evitam de algum modo. Tem algo de humano que os faz tentar evitar o inevitável e algo de divino que faz com que seja impossível consigam. Tímida ela procura outros olhares. Tímido ele não consegue disfarçar a alegria pois, o seu olhar denuncia. Mas vai cada um por um lado após uma tímida despedida.
Passearam por outros lugares, cruzaram seus olhos com outros olhares, apreciaram até outros sorrisos que ambos com incrível humor coseguiam arrancar das pessoas. Mas, agora sentiam saudades um do outro. De uma maneira que a ausência não doía, mas a presença faltava. Assim como quem não queriam um apreciava o outro em fotografia e até então bastava.
Cada um com o seu destino, um destino que vez ou outra os levava aos mesmos lugares providenciou um novo encontro. Ele nada via, e ela nada olhava, mas ela  o olhou e ele a viu e quase sem disfarçar os olhos de ambos percorriam o rosto do outro, o sorriso... Um cumprimento, meia dúzia de palavras, um leve toque nas mãos e cada um para o seu lado novamente até onde podiam porque ela deixara nele os pensamentos, e ele a seguiu com os olhos até não mais alcançá-la. Mas como não pensava em algo que não fosse ela arriscou encontrá-la fingindo coincidência, o que não funcionou. Não ficou tão triste assim, em se tratando dos dois era adiamento. Logo marcariam algo pois no caso deles encontro marcado não era regra. A regra era o encontro, pois marcar era uma circunstância.
Trocaram algumas palavras por qualquer meio de comunicação. Olharam algumas vezes mais as fotografias. Era estranho... não bastava. Agora não mais. Não se sabe quem exitou por mais tempo até finalmente combinarem algo de acordo com o relógio.
Se olharam demoradamente até que vieram os sorrisos, na verdade gargalhadas. Depois de algumas horas o silêncio veio e cada um em sua timidez torcia para que o outro a vencesse, até que fatalmente se olharam querendo cada vez mais perto e um sorria no outro, na boca do outro. Na hora pensavam em tanta coisa que tudo se confundiu e apesar de se demorarem naquele encontro de anseios, e boca e gestos não queriam nada além. Um fazia parte do tempo do outro, do tempo que perderam e do tempo que teriam e até mesmo do tempo hora um hora outro ousaria perder em alguma ausência desnecessária e teimosa que todos insistimos na curta passagem pela vida.
Depois ficaram ansiosos com tudo que descobriram. Ele sabia ser dela e vice-versa e também sabiam que era definitivo porque também era o que queriam. Mas ainda que assim fossem para sempre não era sempre assim. O tempo que antes não importava agora era impreciso e confuso; alguns dias eram muito longos e curtas eram as noites e assim os turnos se confundiam. Os sentidos também entraram em um colapso de ouvidos desejantes de uma só voz, de olhares que procuravam uma única imagem e intenções de arrancar um único sorriso... E o resto do mundo dela reclamou atenção e o mundo dele também não deixou por menos. Se desencontraram um do outro de propósito e deixaram as pistas sumirem, o que não demorou pois sempre há alguém que se encarrega de pegar atalhos e cortar caminho e atravessar pra qualquer lugar confundindo quem tem destino certo.
Hoje é para ele mais um dia sem ela e para ela um dia a menos de espera. Cada um conta o tempo do seu jeito mas se encontram nos mesmos sonhos e são parte de uma mesma realidade que se completa a cada entrega que se permitem na certeza do próximo encontro... que será logo e não acabará cedo. Ambos só querem duas coisas: o para sempre e o nunca mais.

7 comentários:

Rafael disse...

Nunca mais partir... não ter mais de ir... para sempre!!!!

Beleza pura

*lua* disse...

Que texto delicadamente construído ... exaltando a sensação única do querer, do amor, do tempo parar ... fantástico Juci, amei! Beijo

Thayana Ota disse...

Muito obrigada pela visitinha e pela ajuda flor! um beijo imenso!

Valéria Sorohan disse...

Esse teu estilo natural e conciso de escrever é irresistível.
Esse vice e versa significa que são únicos e pertence um ao outro.
Lindo, lindo.

BeijooO

Renato Hemesath disse...

Ah eu também concordo que são parte de uma mesma realidade, a qual eles mesmo construíram e há lembranças que são dolorosamente esquecidas. :/

Ótimo final de semana,

Abraços

Grafite disse...

"Cada um com o seu destino, um destino que vez ou outra os levava aos mesmos lugares"

adoreeei...

beiijo,
*.*

Sil.. disse...

E cada um com seu destino.

Ahhhhh Juci, que coisa mais perfeitaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

Saudadeeeeeeeeeeeeee daqui!!!

Um abraço grandeeeeeee, minha querida.