domingo, 29 de agosto de 2010

Cabe a cada um parte da concha que se faz duas para recordar a pérola que juntos descobrimos.

   Dedico esse post ao amigo Davi Wood como mimo em 
agradecimento as palavras de carinho sempre presentes
 e como prova do meu carinho e respeito adquirido
 ao longo das nossas conversas.

 .
E de repente descubro ser uma ameça. Uma ameaça aos sonhos abandonados, ao vazio que já o tomou, ameaço os planos de nunca mais amor. O curioso é que eu fiz tudo isto distraída enquanto resignada escrevia debruçada na mesa e envolta em meus pensamentos. Tal era minha distração que nem percebi que alguém do lado de fora abriu a janela e começou a me observar. Ele quis saber o que ia em minha mente, sobre o que escrevia e como pensava a vida. Abandonei os meus escritos por um momento e solícita resolvi responder-lhe todas as questões. Abri a porta e o convidei a entrar para facilitar a conversa, naturalmente a minha curiosidade também se revelou. Respondi, perguntei, concordamos algumas vezes e outras não. Eu defendo o que penso até que me provem o contrário, mas não vendo as minhas idéias e nem mesmo desejo que minhas crenças sejam de todos. O que me move é encontrar pessoas, e o que me comove é gostar das pessoas que encontro, visto que nem sempre ou quase sempre não acontece.
Me despedi e o convidei a voltar sempre que desejasse, pensei em aproveitar o jardim em uma próxima conversa, oferecer-lhe uma xícara de café, ou ainda conversarmos andando em volta o quarteirão. Talvez com o tempo quem sabe o mostraria rascunho de um livro ainda inacabado, quem sabe ainda seria um personagem no mesmo. Estariam lá registrados então o nosso inusitado encontro, algumas de nossas conversas e até outra situações que possivelmente poderiam ter acontecido se ele não tivesse resolvido subtrair de tudo o encanto, racionalizar demais, medir o acaso, as surpresas, o tempo que se perde quando o investimos em coisas que nos dão de retorno elas mesmas.
Eu tenho planos. Meus planos não sacrificam a minha capacidade de me encantar com um novo dia, eles não sacrificam nem mesmo a minha ousadia de abandoná-los por um outro. A vida por ela mesma me basta, ela é generosa comigo porque se transforma para que eu não queira outra coisa senão ela mesma, então tenho quatro estações, dia e noite, lugares inusitados e um número inesgotável de pessoas para conhecer caso eu assim deseje. Mas eu sei que não posso ter tudo, e nem quero. Então me concentrei em fundamentos para fazer escolhas, o primeiro é a coragem para que eu não deixe que o medo de perder seja maior que minha vontade de ganhar. 
Quando o verão chega não jogo o meu cachecol, nem meu cobertor mais quentinho, eu apenas os guardo porque o inverno voltará. Assim também é a vida e os nosso projetos para ela, em algum momento precisamos mesmo planejar um outro caminho, mas isso não nos impede de tirar um outro arquivado em alguma gaveta quando sentimos poder realizá-lo. Quando algo não dá certo, não significa que tudo esteja perdido, pode apenas não ser a hora, o momento certo.
O meu amigo estava de viagem marcada para uns meses ainda a frente, soube depois que era para um lugar onde o tempo pouco varia de acordo com as estações, lá sempre faz frio e as pessoas andam sempre elegantes em seus trajes de inverno, não há lá grandes mudanças e a rotina é boa já que as pessoas não ficam muito ansiosas, elas se cumprimentam rapidamente de maneira muito formal e logo voltam para casa para aproveitar o calor da lareira. Foi então que percebi porque o meu amigo estava distante, ele já estava tentando adaptar-se ao lugar de destino, falava com as pessoas que conhecia muito formalmente e de algum modo já agia como se não estivesse mais na cidadezinha que morava, passava o tempo alheio ao que o cercava planejando como seriam as coisas quando não mais aqui estivesse. As nossas conversas se tornaram para ele um problema assim como sentar na sala arejada da minha casa enquanto conversávamos, pois a brisa e a luz do sol que entravam o agradava, ele gostava de estar ali e sentia quando o adiantado da hora interrompia a nossa conversa. Quando voltava para casa ele refletia sobre as questões que discutíamos e planejava a continuação para o dia seguinte. Ele estava cada vez mais aqui, e cada vez menos planejando o acolá.
Passei uns dias fora a visitar parentes e não tive como avisar meu amigo, minha casa ficou trancada uma semana. Foi quando ele se deu conta que aquilo o incomodava, que aos poucos sem perceber voltara a gostar de onde vivia, que sentia saudades das nossas tardes que muito em breve acabariam para sempre quando ele partisse. Mas a tanto planejara sua ida, a tanto já era feliz em outro lugar, um lugar que já era muito real na sua imaginação assim como também era na imaginação que estava a sua felicidade. Tudo no novo destino que escolhera era tão superior, ele mesmo o seria, um estrangeiro respeitado, um profissional competente cheio de títulos e publicações, com todas as pompas e enigmas que o suntuoso mundo dos doutos reservam aos que sacrificam anos de suas vidas às pesquisas abdicando de passeios fúteis e conversas bobas acerca de céu estrelado ou coisa do tipo.
O fato é que ironicamente o sonho já havia dado lugar a realidade, ele já não estava mais aqui, ou pelo menos não queria mais estar. E a realidade, a janela da minha casa que do outro lado da rua ele observava naquele momento agora era sonho, um sonho que deveria ser abandonado, antes que assim como tanto outros virasse pesadelo. Ele pensava no risco, de ficar, de perder a passagem comprada com tanto custo e por capricho da vida que insistia em pregar-lhe peças eu não mais voltasse, ou até voltasse mas enjoasse das nossas conversas e aos poucos não o convidasse a entrar. Voltou pra casa e arrumando as malas decidiu. Decidiu fazer jus ao sacrifício de anos, as lágrimas derramadas em sua solidão, a angústia que o moveu e o encorajou a seguir um novo caminho bem maior para o qual sem dúvida ele estava preparado.
Assim que voltei de viagem abri as janelas, perfumei a casa e quem passou naqueles minutos sentiu um gostoso cheirinho de café invadir todo o ambiente, estava ansiosa para mostrar ao amigo um livrinho velho caindo aos pedaços que remendei como pude, foi o primeiro livro que li, presente da minha vó e que estava guardado no meu antigo quarto em casa de meus pais. Tinha comigo também uma revista que comprei no caminho de volta sobre a cidade que meu amigo logo iria morar, pensei que poderia auxiliá-lo. No horário de costume vi ele passar do outro lado da rua e acenei com a mão para que entrasse. Não entendi naquele momento o que aconteceu, ele levantou o olhar em minha direção, esboçou um "boa tarde" e seguiu como se ele já estivesse na outra cidade e eu fosse uma das pessoas que cumprimentava o estrangeiro enigmático que ali passava. Acompanhei-o com o olhar e antes de virar a esquina ele olhou para trás em minha direção como quem esperava que eu pedisse para que retornasse, como se eu pudesse dá-lo a certeza de que seria sempre do mesmo jeito, mas não o chamei. O encarei com ternura, um olhar de gratidão pelas horas de companhia, e desejando como se desejasse a mim mesma que ele fosse sempre muito feliz.
Entrei, me servi uma xícara de café e sentei a mesa para continuar os meus escritos. Nunca mais mais fechei a janela à tarde, quem passa observa o interior da casa e eu também descanso a vista olhando vai e vem das pessoas. As vezes ouço alguém comentar o cheirinho do café, e até saio a dar voltas no quarteirão a vasculhar minhas lembranças, lá sempre encontro o meu amigo e as nossas conversas, e quem passa e percebe a expressão no meu rosto no exato momento não tem dúvida que penso em alguém que me traz boas lembranças e que sempre...sempre será bem-vindo.
Juci Barros



"Depois do espírito de discernimento, o que há de mais raro no mundo são os diamantes e as pérolas." 

(Jean de La Bruyère)

17 comentários:

ValeriaC disse...

Juci querida como voce escreve divinamente...que bela "estória"...que mais se parece com alguma "história" de tantos de nós...pois quem não tem alguém que nada vida preferiu ir, do que ficar...
E aí ficaram as lembranças no coração e na alma e vez ou outra nos faz relembrar...
Tenha uma ótima semana...beijos...
Valéria

Mulher Vã disse...

O inverno sempre se vai mesmo que foi cinza, frio ou aconchegante, assim tambem é o verão, ele volta com seu calor e cores vibrantes, mas antes disso, tem a primavera, ela sim, perfuma a nossa volta com toque leve e suave esperança de que junto com as flores, virá tambem a paz.


Um beijo moça Juci de excelentes palavras!

Úrsula Avner disse...

Oi Juci,

prazer em contatá-la... Obrigada pelo carinho de sua visita e comentário. Bj.

Vitor disse...

Que bem que se escreve por aqui...com histórias de encantar!

Bj*

Marcos Almeida disse...

Não pares para colher flores. elas já nascem em seu caminho. Abraços do amigo em fragmentos.

Denise Portes disse...

Juci
Que linda história.
Obrigada por seu carinho de sempre.
Beijo
Denise

A. Reiffer disse...

Teu blog está muito belo, belissimo mesmo. Abraços!

*lua* disse...

Juci, meu coração se infla todo de contestação, ele é muito imaturo, pulsante, inconsequente e acima de tudo teima por ser romântico ... entristece-se gravemente quando alguém por medo, deixa escorrer as pessoas por entre os dedos!!! Triste! Beijo grande no seu coração.
* Nossa vc me emocionou com seu carinho ... sem palavras!

ONG ALERTA disse...

Dias cinzas nos fazem refletir muito sibre a vida, paz.
Beijo Lisette

Kakah* disse...

Oiiiii...
Gostei d+!

mt bomm

Bjinhuss

"Só enquanto eu respirar, vou lembrar vc.." disse...

Oi minha linda!Vim retribuir a visita e o belissimo comentário que me deixou, de coração!!!Amei seu blogguer, cheio de belas palavras!!!Estou te seguindo um super beijo com carinho....Rara tenho post novo, passa lá!!!Boa noite.

ana clara tavares disse...

Lindo texto. Tu escreves tão bem!
Obrigada por ler e comentar em meu blog. Beijos

ErikaH Azzevedo disse...

Essa vida tão cheia de ciclicidades, né! A vida é movimento minha flor, movimento...montanha russa, cheio de altos e baixos , e é preciso saber conviver com tantos altos e baixos,e a menina aprendeu né...e tb ensina....faz de si exemplo de vida, força no prosseguir.

Um beijo flor.

Erikah

Veronica Rodrigues disse...

"E aí ficaram as lembranças no coração e na alma e vez ou outra nos faz relembrar."

Concordo !

Continue escrevendo! ótimo os textos.

obrigado pela visita. um beijo e bom finalzinho de semana.

Eduardo Medeiros disse...

Bela homenagem!!!

E que belo texto.

abraços

Max, o Sedutor. disse...

Encatado!!!

Anônimo disse...


Adorei o blog! Vou ao Brasil em Agosto e por causa do tema do blog, o acaso, gostava de lhe enviar um livro meu. Tem o título Árvore da Vida. Não encontrei o seu e-mail.
Por favor me escreva para luzcpmpasso@gmail.com para combinar o modo de eu lhe enviar o livro.
Até breve. Luz http://luzc-web.blogspot.pt/