E porque não escrevo sobre tudo é que escrevo sobre você.
Você que me olhou quando pensou que eu não via. Você que parou de me olhar quando percebeu que eu notava e esperava minha distração para voltar a mirar-me...
E porque nem tudo que percebo me interessa é que escrevo a seu respeito.
Você que agora me fala que me quer falar. Você que quer saber sobre meus interesses torcendo que teu nome conste na lista, mas como não sei o que te interessa de fato vagamente falo coisas e deixo as que calam exatamente assim...
E porque calo sobre o que me é caro aqui tenho sobre você palavras.
Você que me toca com as mãos talvez querendo alcançar o coração. Você a quem toco para me sentir viva sabendo que me toque ferve o sangue que corre em tuas veias que bombeiam um coração que não sei até onde pretendo tocar...
E porque gosto de ver falo de você com os olhos fechados.
Você que tenta falar-me coisas até que eu te interrompa tocando-te os lábios com os dedos em armadilha, ainda que carinhosa, é armadilha. Você que pretende me dizer o que qualquer mulher espera ouvir...
E porque me entrego em mistérios descrevo o que em ti pra mim é muito claro.
Um jovem que de tão comum se faz diferente. Básico, muito básico. Falta-lhe coisas sem as quais eu viveria, mas me dou a luxos que rapidamente te fariam acreditar que não mereça...
E porque não te quero igual a tudo te dedico palavras quando ainda não arrisco te mostrar...
E porque me interesso por você apesar de ainda não perceber o que em ti me desperta construo mecanismos que me diga o que vai no que sinto quando leio as coisas que eu mesma escrevo...
E porque tenho medo de te fazer sofrer sei que sua falta me custaria muito, ainda que eu não entenda exatamente o que é para mim sua presença...
E porque te vejo quando fecho os olhos arrisco de vez em quando algumas palavras para ver-te rir e memorizar seu sorriso e quem sabe falar mais dele, de você...
E porque sei que é muito o que eu não sei de ti ainda tenho paciência para procurar mais de ti enquanto repetimos mais do mesmo, como alguém que garimpa um tesouro passeio em ti como os garimpeiros em túneis...
O que sei sobre nós dois não é muito. Sei que não é tão bom pensar ser para alguém apenas uma possibilidade, mas se esse alguém sou eu é importante saber também que não vejo possibilidades em um nós tão facilmente... Tento nos poupar do que pode acontecer enquanto ainda não entendo o que já aconteceu...
Se um dia eu deixar escapar as palavras que agora escrevo e elas correrem até você talvez eu descanse.
Cada vez menos consigo descansar, não é fácil dizer a alguém que não posso me entregar enquanto não me tenho, te respeito muito e não te deixarei na companhia de um corpo e só um corpo. Algumas vezes é só o que sou, cansada de pensar e sentir outrora em demasia minha alma desencontrou-se do corpo e eu ainda espero o que ou quem possa uni-los.
Eu preciso então de tempo, o tempo das sensações, e mesmo assim não há garantias pra você... nem para mim. Escrevo com lágrimas escorrendo dos olhos e ouvindo o cara que canta como se o fizesse pensando em mim(e de quem aqui já falei) e que a pouco descobri que você também se identifica com a mesma arte. Eu ouço as flautas e o violão e a voz que parece sair de um coração que está se rasgando e me sinto um pouco feliz de me encontrar um na tristeza que se faz canto.
Não planejo nem o próximo segundo, se me compreenderes me perdoará pelos dias que não poderei prometer-lhe. É como a dança que tanto me faz falta e então visto o figurino e danço só no salão vazio dos meus pensamentos, e agora entrego a minha alma ao que reclama corpo. São as duas metades de mim que me confundem enquanto na verdade deveriam se confundir uma na outra...
Agora vou induzir meu sono na esperança de que seja você o meu sonhar. O fato é que se não o amo, te respeito e admiro a ponto de querer-te amar...
"Quem andou no escuro vai ter faro e ouvir melhor. Tem direito ao descanso, vai ter férias da dor. (...) Todo encontro é cordão nos ligando ao que vai. Todo encontro é vagão de um trem que sai."
Oswaldo Montenegro