Mostrando postagens com marcador Eu Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eu Conto. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de maio de 2011

No tempo do tempo...

No tic-tac das horas abri meus olhos 6hs da manhã. E um segundo seguia o outro sem saber do meu atraso. Comecei a seguir o tempo como se eu fosse dele e ele não fosse meu. Geralmente almoçava com pressa e por volta das 13hs.
A medida que o tempo esfriava conseguia acompanhar o tempo com meu sangue quente e me dava ao luxo de ser bem lady, andava no salto com toda a elegância e sabia que por onde passava deixava um aroma sedutor de cheia de vida. Olhei para o relógio quase sem interesse  as 18hs.
No somar das horas já é hoje e tenho a sensação de que o tempo está me espreitando, como se ele soubesse mais do que eu que estarei ainda melhor em dias do amanhã. vestida de festa e centro de tudo que é mágico contrariando todo o meu senso de realidade.

domingo, 20 de março de 2011

Coisas de casal

E você está lá pronta para viver e o cara sempre chegando atrasado. Suas vontades não se efetivam e então você resolve admirar-se em toda sua espontaneidade guardada e pronta para ser desfrutada, mas não agora, não mais.
Ele te pergunta o que houve e é ridículo; o que não houve é que incomoda. E não houve por que? Porque ele resolveu te deixar na geladeira para depois do papinho com os amigos, da cervejinha com outros  igualzinhos a ele, e que ainda por cima acham-se no direito de ligar depois e te encontrar disponível. Como se não bastasse ele ainda vais querer saber o que você fez  e aonde você esteve enquanto "esperava por ele".
E ele que te colocou na geladeira tem um ataque de amnésia e não entende porque você o trata friamente...
BAH!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Mutuamente anjos

O meu anjo não sabe que é meu anjo da guarda, ele só sabe que me guarda. O meu anjo é tão inocente que acha que precisa de mim para voar, como se eu tivesse asas. 
Um dia enquanto voávamos ele olhou para baixo e temeu me deixar cair, por um segundo ele quase descobre que é ele quem me convida a voar.
Quando eu olho dentro dos olhos do anjo vejo que nada me acontecerá, e vejo também que ele teme um dia eu não querer mais sua companhia.
Ele só sabe que me guarda, meu anjo da guarda não sabe que eu guardo o que é meu.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Da rotina um ritual

Sonho em um dia acordar do seguinte modo:
Um despertador ao lado me desejando bom dia como fazem todos os despertadores do mundo cada um com seu triiiimmmm particular, então meio a contragosto me levantar ainda atordoada para cair no chuveiro e após todo o processo de higiene matinal seguir até a cozinha com vontade de comer um monte de coisas e ter me conformar com um cafezinho com leite apressado. Pegar a condução e dar bom dia ao condutor, ouvir um pedacinho de uma conversa amuada sobre a notícia fresca do dia ( e que seja leve!) e chegar ao trabalho com a sensação de que me esperam com meus planos que mais uma vez se perderiam em meio rotina obrigatória. Então esperar o almoço e voltar para casa e correr ao encontro de um banho mais desejado, talvez reorganizar em casa os planos sobre o trabalho que no trabalho ficam sem espaço e aos poucos voltar a esperar o futuro mais próximo e mais presente; preparar um jantarzinho ( e que seja o velho café!) e falar sobre o dia deitada no sofá e de cafuné em cafuné esticar para a cama como se o dia todo fosse preparação para o deitar.
Triiiimmmm... triiiimmmm... triiiimmmm... triiiimmmm...






Bom dia!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

É muito bom saber que você é meu amigo!

Vou contar a vocês uma história interessante que tem início aqui no Compromisso Com O Acaso. Em janeiro do ano passado comecei a postar aqui meus pensamentos, minhas inquietações, opiniões e gostos, e no perfil coloquei um pouco do que sou e faço e me coloquei a disposição de quem se interessasse pelas mesmas coisas ou sofresse de um problema que carrego desde a infância e com o qual convivo até hoje, só que agora mais consciente e familiarizada com a situação. Eu sofro de um tipo de depressão muito cruel e de múltiplas manifestações (TOC, Síndrome do Pânico, Bipolaridade, Amnésia temporária entre outros). Mas, confesso sem modéstia que sou uma pessoal especial e forte, e o que me fez forte foi exatamente as crises de completa fraqueza. É característico de pessoas assim como eu terem em si muitas habilidades, e comigo não é diferente, sempre fui meio prodígio, porém, sempre interrompida de forma brutal por crises. Mas, voltando ao que estava contando; ontem fez um ano que conheci um rapaz muito competente profissionalmente que gostou do que leu e entrou e contato comigo. O nome dele é Davi Wood e já postei em homenagem a ele por aqui, nos tornamos bons amigos, aqueles de rir e chorar juntos. Ele me lembrou que ontem faz um ano que conversamos. O Davi é psicólogo e professor em uma faculdade, já passamos horas a fio conversando sobre temas acadêmicos, como também sobre banalidades e em muitas oportunidades apesar da distância ele foi e é meu analista, ou um par de olhos que me lê com calma, paciência e interesse. Alguém que eu sei que está lá, ou aqui quando eu precisar, e não pelos problemas e ajuda, mas pela amizade em si que já se fez necessária. 


Isso me faz pensar em como nós seres humanos somos capazes de interação, de comunicação, de sensibilidade. As nossas palavras sejam ditas ou escritas, depois de lançadas estabelecem pontes que nos fazem sentir menos solitários nessa jornada inevitavelmente individual e única que é a vida de cada ser. Em uma das nossas últimas conversas o meu amigo em questão fez a seguinte indagação_ Juci, será que as pessoas que lêem os posts chegam ao menos perto da sua realidade?
Talvez vocês possam nos responder tal pergunta. Talvez agora em contato com novas informações me leiam diferente. O que sei é que como toda obra de arte é menos importante o que artista coloca do que o que a obra provoca nos que a contemplam. O que eu sinto sobre mim mesma é uma contínua superação, que se dá a cada vez que a alegria invade minha tristeza, e por isso eu supere tanto, supere demais, muitas vezes em um mesmo dia, uma dia após o outro, ano após ano. Eu vivo recomeçando sem perder o que do passado ainda me serve, e fazendo um esforço enorme para não perder nenhum presente que o presente me dá, ainda que algumas vezes o máximo que desejo é conseguir acreditar no futuro, no próximo segundo, como se me desistisse a cada respiração. Mas nunca fui vencida, e devo isso às surpresas que a mim se apresentam, porque estou atenta!
Por isso hoje quero agradecer a todos os amigos aqui presentes simbolizados hoje por Davi que brinda comigo a vida, a amizade!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Só se doa quem (se) dá!

     A mulher se despi e esquece. Se faz cheiro, se faz gosto para o homem, o homem que é seu.
     O seu homem não a resiste, não a censura, ele simplesmente a devora.
     A mulher se deixa ser devorada, e em mente vive uma devoração mais plena, ela devora todas as vontades daquele homem. Ele não existe, o que existe é vontade dela. Ainda que ele mande, que ordene, ela já se fez ordem na sua imaginação, fez bagunça em sua mente, e é ela responsável por tanta pulsação.
     O seu homem a toca, e precisa tocá-la muito, e ainda mais para provocar  nela as sensações que ele sente apenas ao olhá-la. Ele sussurra o nome dela para culpá-la do seu descontrole, para agradecê-la, para desconcertá-la também.
     A mulher não sai de si, pelo contrário, ela entra no melhor de si. Ela sabe que seu homem encantado vai querer adentrá-la de muitas maneiras. Ele a quer, já não se importa consigo. Então ele procura nos olhos dela um convite.Ele quer acreditar que ela o precisa.


     A mulher quer o seu homem sim, mas paradoxalmente ela só o quer de verdade quando sabe que ele já é dela. Como se não bastasse ela também quer o prazer que é dele. Ela fala,sim, ela o chama, e ela agora é mais que miragem, é a voz a quem ele obedece, ou até a voz que ele desobedece na ânsia de participar dela, se misturar.
     A mulher observa a força que se faz no corpo dele... ah ela faz dele melhor sim! Ela ouve o som que ele faz e, nem ele acredita, mas demonstra à sua menina que não tem defesas, que precisa dela. Ele quer beber o néctar, sugá-la até que ele mesmo transborde em vida. Ela fecha os olhos e como as nervuras de rio se derrama, e como que por milagre sente-se emergindo em suas próprias águas.
     O seu homem a mantém respirando quando, assustada, abre os olhos ela é tomada por um longo beijo. Então, ela entrelaça seus dedos nos dele, e suas pernas no corpo dele. Ela pode; é o seu homem. Ele a ouve; o convida a entrar... ele não exita.
     Começam a dançar, ela adora dançar. Aperta o corpo dele contra si e sorri de olhos fechados como louca rodopiando no vai e vem da dança em um salão. E volta a si quando percebe que a água que se derrama entra em contato com areia fofa. Mistura o que sonha e o que sente e agarra o homem que é dela, e ela sem perceber não é menos dele. 
     Em um lapso de sensações e sentidos encontram-se em olhares cheios de sentimentos, de cumplicidade e em um ímpeto decidem em uma tentativa de colisão um golpe de vida plena. Por alguns segundos sentiram a vida em núcleo. Não se falam, não há motivos, ambos sabem que viram a mesma coisa; o grito inevitável de satisfação e plenitude denunciava que foram ao mesmo lugar e recebidos na mesma condição, a de puros, porque só consegue se entregar completamente quem volta ao estado de pureza que não separa sensações, sentidos e sentimentos.

domingo, 31 de outubro de 2010

Servidos e Insatisfeitos

O problema dele é se economizar quando acredita ser o suficiente.
O meu é pensar que em matéria de amor nunca se é o bastante.
Meu problema é não saber pedir, ou mesmo mandar o que ou como deve ser.
O dele é não usar o espaço e o tempo sem esperar sugestões minhas ou se preocupar com opiniões de outros.


O problema dele é oferecer ajuda quando não preciso e não me esconder em um abraço quando me encolho.
O meu é ser grata a ele por ouvi-lo dizer que está por perto e não reclamar o abraço.
O meu problema é gostar de sentí-lo quando ele é o que quero, mas ignorá-lo quando ele não age como o homem que admiro.
O dele é me admirar muito sem fazer da admiração estímulo para ser o melhor ao meu lado, e ocupar o estar ao meu lado sempre; em qualquer hora e lugar e absoluto em meu coração.
O problema dele é não fazer beijo todas as vontades de beijar, ainda que sejam muitas, ainda que sejam demais.
O meu é achar tão demais beijar que sou toda vontade seja hora boa ou ruim. Se não beijo é porque estou péssima, ou fico assim se não beijo.
O meu problema é resistir depois do toque, depois de dizer gritar sim com os olhos, e com as mãos segurar as dele pouco depois de o puxar para mim.
O dele é não me puxar para um outro lugar, é não vazar pelos meus olhos me despindo com toques insistentes e me invadindo com uma vontade tão grande que se faça minha também.
O problema dele é me contar tudo que quer dizer me negando o que quero ouvir.
O meu é ouvir o que ele pensa ainda que não me conte.
O nosso problema é estarmos juntos e não vivermos tudo, é deixar resquícios de nada um no outro enquanto temos uma imensa vontade de ocupar espaços no outro com coisas nossas que não nos cabem mas que cairiam divinamente no outro. O nosso problema é fazer pouco da solução que somos e teimamos insolúveis. Somos a cena de xícara limpa posta na mesa ao lado de água quente e capuccino. Sabemos o que fazer e até capazes de saber o gosto, imaginar a textura e o cheiro. Temos até a certeza de que repetiremos várias vezes. Nosso problema é que juntos somos melhores, só que ainda não estamos misturados... Hora um é assim como água transparente e quente e o outro perfeita concentração.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Natural

O que me encanta nos pássaros são meus ouvidos que me possibilitam seu canto.
O que me encanta nas borboletas são meus olhos que as acompanham e capturam suas cores.
O que me encanta nas flores são as minhas narinas que puxam para dentro de mim seus perfumes.
O que me encanta nas uvas e nos morangos são o mesmo líquido que enchem a minha boca antes mesmo da mordida.
O que me encanta na grama são meus pés descalços que massageiam minha alma quando por sobre a grama caminho.
O que me encanta é a natureza da qual eu sou parte. Ela me seduz e dela me aproprio. Eu e a natureza daríamos uma bela tela, tela de natureza viva. Viva porque interage.
Se os pássaros não cantassem ainda assim eu os observaria batendo suas asas e ganhado o céu.
Se as borboletas fossem todas de uma só cor ainda me encantaria a leve brisa que sinto quando passam bem perto.
E se as flores não tivessem cheiro, tamanha a beleza delas já cumpririam um belo papel.
E as uvas, os morangos e toda a diversidade de frutas são além de sabor, são formas, são cores.




Na grama que sinto,sinto a mim mesma. Vida que faz viver sem querer fazer absolutamente nada.
Eu tenho na voz melodia de pássaro e leveza de borboleta na silhueta. Tenho perfume de flor que se abre para um novo dia e provoco em muitos certa fome de viver. Sou paisagem com grama sem placa de NÃO PISE, porém sempre viçosa nunca me ferem com os pés, pelo contrário, com eles me acariciam e imagino que cada gargalhada em tal momento são as cócegas que faço assim que por algum descuido sinto-me ameaçada.
A mesma natureza que me faz sorrir é a que sorri todos os dias para mim.


Mas não entendo os dias que não me sinto parte de nada, os dias em que tudo que sinto é estar cheia de tudo. Mesmo cheia se pudessem olhar-me dentro de mim através do meu olhar perdido encontrariam um abismo. Um abismo no qual me jogo por puro medo. E então perco as asas, é um salto livre. Mas não é liberdade o que sinto, é a angústia, caio e nunca chego ao chão, até a hora em que me aparece um a flor em um barranco ou borboletas me acompanham. A leveza ressurge, flutuo por algum tempo e logo volto a voar...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Quem manda na situação...


Ela não pediu licença, deu uma batidinha rápida na porta e entrou como quem entra em sua própria sala com uma decisão na cabeça e cheia de atitude no corpo. O seu chefe continuou com o mesmo olhar embasbacado de sempre, não de sempre o tempo todo, mas de sempre que a via. Ela fechou a porta passando a chave e se enconstou nela por um momento fitando o homem com um ar sorridente...
Calmamente andou até a cadeira giratória e no mesmo movimento do girar da cadeira a moça dobrou as pernas e cravou seus pés na mesa do homem sabendo que estava em posição de vantagem. É bem verdade que aquele escritório era mais dela que dele por direito, todos os dias chegava mais cedo e organizava o espaço de modo que sabia encontrar alí qualquer objeto com máxima precisão, e não foram poucas as vezes que sentara na confortável poltrona do chefe sem nenhum constrangimento e ficava a imaginar a cena que ela agora fazia.
_Vejo que a senhorita já pensou na minha proposta e presumo que já sei também da tua decisão.
Ela responde olhando as unhas como se tratasse de coisa sem importância:
_ É Dr. Raul, já decidi sim e confesso que nem precisei pensar muito. Na verdade sua proposta era uma questão de tempo, caso o senhor não saiba eu sou ainda melhor lendo olhares que quando reviso os relatórios da empresa.
Com admiração e o ego explodindo de contentamento ele responde:
_ Ora Júlia, não me trate por Dr. quando estivermos a sós, assim você até põe em risco toda a autoridade que exerceu aqui desde que entrou por aquela porta. Aliás, se lê tão bem olhares já deveria tê-lo feito a mais tempo.
_ Confesso Raul que você ainda não estava pronto e me repreenderia como um ato instintivo de auto proteção.
Ele ainda mais envaidecido:
_ Então me diz que você me oferece risco? Pode me dar uma mostra?
Agora ela o encara desafiadoramente para respondê-lo:
_ Não me custaria nada vê-lo completamente despido de sua tão acostumada postura autoritária a receber ordens minhas, a esforçar-se para não deixar transparecer a sua completa falta fôlego como se não fosse para mim evidente e até interessante nossas diferenças...
Toca o telefone.
Os dois se entre olham sem  nenhum movimento por parte de ambos até que o telefone volta a tocar e Júlia que já havia pulado no colo de Raul atende:
_ Eunice eu não pedi para não ser incomodada?!
A outra voz responde do outro lado da linha:
_ Desculpe-me Drª. Júlia, é que ligaram da sua casa. A babá disse que seu filho está queimando em febre e o seu marido não está em casa.
A então Drª. Júlia desliga o telefone furiosa abre a gaveta onde fica a sua bolsa e entrega a chave do carro ao Raul acompanhada das seguintes palavras:
_Você dirige, eu estou muito nervosa, o Julhinho está com febre e a babá ligou avisando. 
Os dois saem apressados e no carro depois do susto a Júlia comenta fazendo um afago no marido:
Não se preocupe querido, depois nós continuamos a brincadeira. Na segunda feira que é quando o seu restaurante está fechado para o público.
_ Combinado então. _ Responde o Raul com sorriso nos olhos.
Nas segunda feira... Ele entra na sala de gravata borboleta e avental  como quem entra na cozinha da própria casa, enquanto ela decora desajeitadamente um prato...

PS: Continua na imaginação de cada um de vocês.

Juci Barros

domingo, 29 de agosto de 2010

Cabe a cada um parte da concha que se faz duas para recordar a pérola que juntos descobrimos.

   Dedico esse post ao amigo Davi Wood como mimo em 
agradecimento as palavras de carinho sempre presentes
 e como prova do meu carinho e respeito adquirido
 ao longo das nossas conversas.

 .
E de repente descubro ser uma ameça. Uma ameaça aos sonhos abandonados, ao vazio que já o tomou, ameaço os planos de nunca mais amor. O curioso é que eu fiz tudo isto distraída enquanto resignada escrevia debruçada na mesa e envolta em meus pensamentos. Tal era minha distração que nem percebi que alguém do lado de fora abriu a janela e começou a me observar. Ele quis saber o que ia em minha mente, sobre o que escrevia e como pensava a vida. Abandonei os meus escritos por um momento e solícita resolvi responder-lhe todas as questões. Abri a porta e o convidei a entrar para facilitar a conversa, naturalmente a minha curiosidade também se revelou. Respondi, perguntei, concordamos algumas vezes e outras não. Eu defendo o que penso até que me provem o contrário, mas não vendo as minhas idéias e nem mesmo desejo que minhas crenças sejam de todos. O que me move é encontrar pessoas, e o que me comove é gostar das pessoas que encontro, visto que nem sempre ou quase sempre não acontece.
Me despedi e o convidei a voltar sempre que desejasse, pensei em aproveitar o jardim em uma próxima conversa, oferecer-lhe uma xícara de café, ou ainda conversarmos andando em volta o quarteirão. Talvez com o tempo quem sabe o mostraria rascunho de um livro ainda inacabado, quem sabe ainda seria um personagem no mesmo. Estariam lá registrados então o nosso inusitado encontro, algumas de nossas conversas e até outra situações que possivelmente poderiam ter acontecido se ele não tivesse resolvido subtrair de tudo o encanto, racionalizar demais, medir o acaso, as surpresas, o tempo que se perde quando o investimos em coisas que nos dão de retorno elas mesmas.
Eu tenho planos. Meus planos não sacrificam a minha capacidade de me encantar com um novo dia, eles não sacrificam nem mesmo a minha ousadia de abandoná-los por um outro. A vida por ela mesma me basta, ela é generosa comigo porque se transforma para que eu não queira outra coisa senão ela mesma, então tenho quatro estações, dia e noite, lugares inusitados e um número inesgotável de pessoas para conhecer caso eu assim deseje. Mas eu sei que não posso ter tudo, e nem quero. Então me concentrei em fundamentos para fazer escolhas, o primeiro é a coragem para que eu não deixe que o medo de perder seja maior que minha vontade de ganhar. 
Quando o verão chega não jogo o meu cachecol, nem meu cobertor mais quentinho, eu apenas os guardo porque o inverno voltará. Assim também é a vida e os nosso projetos para ela, em algum momento precisamos mesmo planejar um outro caminho, mas isso não nos impede de tirar um outro arquivado em alguma gaveta quando sentimos poder realizá-lo. Quando algo não dá certo, não significa que tudo esteja perdido, pode apenas não ser a hora, o momento certo.
O meu amigo estava de viagem marcada para uns meses ainda a frente, soube depois que era para um lugar onde o tempo pouco varia de acordo com as estações, lá sempre faz frio e as pessoas andam sempre elegantes em seus trajes de inverno, não há lá grandes mudanças e a rotina é boa já que as pessoas não ficam muito ansiosas, elas se cumprimentam rapidamente de maneira muito formal e logo voltam para casa para aproveitar o calor da lareira. Foi então que percebi porque o meu amigo estava distante, ele já estava tentando adaptar-se ao lugar de destino, falava com as pessoas que conhecia muito formalmente e de algum modo já agia como se não estivesse mais na cidadezinha que morava, passava o tempo alheio ao que o cercava planejando como seriam as coisas quando não mais aqui estivesse. As nossas conversas se tornaram para ele um problema assim como sentar na sala arejada da minha casa enquanto conversávamos, pois a brisa e a luz do sol que entravam o agradava, ele gostava de estar ali e sentia quando o adiantado da hora interrompia a nossa conversa. Quando voltava para casa ele refletia sobre as questões que discutíamos e planejava a continuação para o dia seguinte. Ele estava cada vez mais aqui, e cada vez menos planejando o acolá.
Passei uns dias fora a visitar parentes e não tive como avisar meu amigo, minha casa ficou trancada uma semana. Foi quando ele se deu conta que aquilo o incomodava, que aos poucos sem perceber voltara a gostar de onde vivia, que sentia saudades das nossas tardes que muito em breve acabariam para sempre quando ele partisse. Mas a tanto planejara sua ida, a tanto já era feliz em outro lugar, um lugar que já era muito real na sua imaginação assim como também era na imaginação que estava a sua felicidade. Tudo no novo destino que escolhera era tão superior, ele mesmo o seria, um estrangeiro respeitado, um profissional competente cheio de títulos e publicações, com todas as pompas e enigmas que o suntuoso mundo dos doutos reservam aos que sacrificam anos de suas vidas às pesquisas abdicando de passeios fúteis e conversas bobas acerca de céu estrelado ou coisa do tipo.
O fato é que ironicamente o sonho já havia dado lugar a realidade, ele já não estava mais aqui, ou pelo menos não queria mais estar. E a realidade, a janela da minha casa que do outro lado da rua ele observava naquele momento agora era sonho, um sonho que deveria ser abandonado, antes que assim como tanto outros virasse pesadelo. Ele pensava no risco, de ficar, de perder a passagem comprada com tanto custo e por capricho da vida que insistia em pregar-lhe peças eu não mais voltasse, ou até voltasse mas enjoasse das nossas conversas e aos poucos não o convidasse a entrar. Voltou pra casa e arrumando as malas decidiu. Decidiu fazer jus ao sacrifício de anos, as lágrimas derramadas em sua solidão, a angústia que o moveu e o encorajou a seguir um novo caminho bem maior para o qual sem dúvida ele estava preparado.
Assim que voltei de viagem abri as janelas, perfumei a casa e quem passou naqueles minutos sentiu um gostoso cheirinho de café invadir todo o ambiente, estava ansiosa para mostrar ao amigo um livrinho velho caindo aos pedaços que remendei como pude, foi o primeiro livro que li, presente da minha vó e que estava guardado no meu antigo quarto em casa de meus pais. Tinha comigo também uma revista que comprei no caminho de volta sobre a cidade que meu amigo logo iria morar, pensei que poderia auxiliá-lo. No horário de costume vi ele passar do outro lado da rua e acenei com a mão para que entrasse. Não entendi naquele momento o que aconteceu, ele levantou o olhar em minha direção, esboçou um "boa tarde" e seguiu como se ele já estivesse na outra cidade e eu fosse uma das pessoas que cumprimentava o estrangeiro enigmático que ali passava. Acompanhei-o com o olhar e antes de virar a esquina ele olhou para trás em minha direção como quem esperava que eu pedisse para que retornasse, como se eu pudesse dá-lo a certeza de que seria sempre do mesmo jeito, mas não o chamei. O encarei com ternura, um olhar de gratidão pelas horas de companhia, e desejando como se desejasse a mim mesma que ele fosse sempre muito feliz.
Entrei, me servi uma xícara de café e sentei a mesa para continuar os meus escritos. Nunca mais mais fechei a janela à tarde, quem passa observa o interior da casa e eu também descanso a vista olhando vai e vem das pessoas. As vezes ouço alguém comentar o cheirinho do café, e até saio a dar voltas no quarteirão a vasculhar minhas lembranças, lá sempre encontro o meu amigo e as nossas conversas, e quem passa e percebe a expressão no meu rosto no exato momento não tem dúvida que penso em alguém que me traz boas lembranças e que sempre...sempre será bem-vindo.
Juci Barros



"Depois do espírito de discernimento, o que há de mais raro no mundo são os diamantes e as pérolas." 

(Jean de La Bruyère)